Você me pediu um poema, mas hoje só achei poesia
Toco tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca e a vou desenhando como se ela saísse da minha mão, como se pela primeira vez tua boca se entreabrisse, e basta que eu feche os olhos para desfazer tudo e recomeçar, e a cada uma das vezes faço nascer a boca que desejo, a boca que minha mão escolhe e desenha no teu rosto, uma boca escolhida entre todas, com soberana liberdade escolhida por mim para desenhá-la no teu rosto e que, por um acaso que não tento entender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri por debaixo daquela que minha mão desenha em você.
Você me olha, você me olha bem de perto e me olha cada vez mais de perto e então brincamos de ciclope, nos olhamos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se um do outro, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam tranquilas, mordendo-se com os lábios, apoiando leve a língua nos dentes, brincando em seus lugares de onde um ar pesado vai e vem com um perfume conhecido e um silêncio. Então as minhas mãos procuram se afundar no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos em um breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa morte momentânea é bela. E há uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremer contra mim como uma lua na água.
(Julio Cortázar, Rayuela, Cap. 7.)
Alguém Sonha
“Sonhou a arte da palavra, ainda
mais inexplicável que a da
música
porque inclui a música. “
O que terá o Tempo sonhado até agora, que é, como todos os agoras, o auge? Sonhou a espada, que tem no verso seu melhor assento. Sonhou e lavrou a sentença, que pode simular a sabedoria. Sonhou a fé, sonhou as Cruzadas atrozes. Sonhou os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida. Sonhou a aniquilação de Cartago pelo fogo e pelo sal. Sonhou a palavra, esse símbolo estúpido e estático. Sonhou a sorte que tivemos ou que agora sonhamos que tivemos. Sonhou a primeira manhã de Ur. Sonhou o misterioso amor da bússola. Sonhou a proa do norueguês e a proa do português. Sonhou a ética e as metáforas do mais estranho dos homens – o que morreu numa tarde numa cruz. Sonhou o sabor da cicuta na língua de Sócrates. Sonhou esses dois curiosos irmãos, o eco e o espelho. Sonhou o livro, esse espelho que sempre nos revela outro rosto. Sonhou o espelho em que Francisco López Merino e sua imagem se viram pela última vez. Sonhou o espaço. Sonhou a música, que pode prescindir do espaço. Sonhou a arte da palavra, ainda mais inexplicável que a da música porque inclui a música. Sonhou uma quarta dimensão, e a singular fauna que a habita. Sonhou o número da areia. Sonhou os números transfinitos, aos que não se alcança contando. Sonhou o primeiro que escutou num trovão o nome de Thor. Sonhou os rostos opostos de Jano, que nunca se verão. Sonhou a lua e os homens que caminharam pela lua. Sonhou o poço e o pêndulo. Sonhou Walt Whittman, que decidiu ser todos os homens, como a divindade de Espinosa. Sonhou o jasmim, que não pode saber que o sonham. Sonhou as gerações de formigas e as gerações dos reis. Sonhou a vasta teia que tecem todas as aranhas do mundo. Sonhou o arado e o martelo, o câncer e a rosa, as badaladas da insônia e o xadrez. Sonhou a enumeração que os tratadistas chamam caótica e que é de fato cósmica, pois todas as coisas estão unidas por vínculos secretos. Sonhou minha avó Frances Haslam na guarnição de Junín, a um passo das lanças do deserto, lendo sua Bíblia e seu Dickens. Sonhou que nas batalhas os tártaros cantavam. Sonhou a mão de Hokusai traçando uma linha que em breve será uma onda. Sonhou Yorick, que vive para sempre em umas palavras do ilusório Hamlet. Sonhou os arquétipos. Sonhou que durante os verões, ou num céu anterior aos verões, há uma só rosa. Sonhou os rostos dos teus mortos, que agora são fotografias desfiguradas. Sonhou a primeira manhã de Uxmal. Sonhou a ação da sombra. Sonhou as cem portas de Tebas. Sonhou os passos do labirinto. Sonhou o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha. Sonhou a vida dos espelhos. Sonhou os signos que traçará o escriba sentado. Sonhou uma esfera de marfim que guarda outras esferas. Sonhou o caleidoscópio, grato ao ócio do doente e do menino. Sonhou o deserto. Sonhou a madrugada que espreita. Sonhou o Ganges e o Tamisa, que são nomes de água. Sonhou mapas que Ulisses não compreendeu. Sonhou Alexandre da Macedônia. Sonhou o muro do Paraíso, que deteve Alexandre. Sonhou o mar e a lágrima. Sonhou o cristal. Sonhou que alguém o sonha.
(Borges, Los Conjurados)
A velocidade das tartarugas
Ao que tudo indica, nossa tartaruga morreu.
Elas – as tartarugas – não são muito de falar e nem de manifestar suas vontades, mas aparentemente a nossa achou que já era hora de entrar em casa e não sair mais.
Nunca veio me olhar enquanto eu trabalhava nem se esfregava em meus pés pedindo carinho. Ficava lá no seu mundo e costumava se esconder quando a gente ia dar comida e ficava muito brava na hora de trocar a água.
Não nos dava carinho e nós simplesmente cuidávamos dela – às vezes a colocávamos no sol, pra ela poder dar uma saracotiada.
Mas era nossa.
Tartarugas e Cronópios
O que se passa agora é que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural.
As esperanças sabem disso, e não se preocupam.
Os famas sabem disso, e debocham.
Os cronópios sabem disso, e cada vez que encontram uma tartaruga, pegam uma caixa de giz colorido e sobre a lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha.
(Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas)